Papéis Avulsos | Carapuça

Papéis Avulsos _ II

Postado por Maira Brum em 29 jul 2010 - (8) Comentários

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   Relembrando a importância de divulgarmos coisas boas eu resolvi dar continuidade ao Papéis Avulsos. Este unirá a idéia de uma menina-mulher e a experiência de um antigo sábio.

   Sem muito buscar encontrei dois textos, duas realidades e épocas sobre um mesmo tema : as palavras.  Os escritos que postarei  falarão sobre o nosso maior bem, a nossa maior expressão.   Eles lhe contarão ora de uma forma sucinta, ora de um modo rebuscado uma nova face das palavras. Para que deixes de vê-las como banais artifícios de comunicação e outra vez se encante com o poder delas.

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     Ingrid Cunha  

Ingrid Cunha

 

   Ela não têm livros lançados como nosso outro autor, mas este detalhe não se faz critério para que seus poemas sejam conhecidos. 

   Ingrid Cunha à primeira vista é uma louca.  De fato, leitores, tenho vivência com esta aspirante a escritora. Vivência a qual a faculdade me proporcionou. Estranho como em “meros” seis meses o desconhecido se tranforma em previsível, e o coleguismo se transforma em amizade.  E não pensem que por ter contato comigo, ou por sermos amigas, que seu texto aparecerá aqui.  Aprecio o dom da escrita e pessoas que fazem deste dom uma meta, um trabalho, uma idéia.  Posto o que acho válido, o que acho raro, e o que penso verdadeiro.

   Mas como ia dizendo, Furmiga (como é conhecida),  a muito me surpreendeu.  De pequena esta pequena não tem nada. Dotada de uma personalidade forte e de um estilo que não agrada a todos ela é , anda e veste o que pensa. E por muitas das vezes radicaliza para ser, por completo, criação e inspiração de si.

Criação e inspiração de si

  

Como muitos que venho conhecendo ela guarda uma parte de sua personalidade que só apresenta a poucos e foi, tendo essa liberdade de troca, que descobri uma incrível escritora que perambula pelo curso de Ed. Física, mas que já passou pelo de Administração e que surpreende a cada conversa.

 

 

 

 

 

 

PALAVRAS DOURADAS!


Ah céus…se as palavras ainda fossem de ouro
Ainda haveriam estouros, quando fossem quebradas.
Ah vida…se as palavras não valem de nada
Agora sou carta rasgada voando em pedaços no vento.
Óh tormento de vida, em que não se vê a saída
sem uma atitude renunciada.
Mas quão maior é o tormento quando a atitude do momento
em segundos é uma nota furada.
Pra onde foi o brilho??
*Aonde estão os trilhos que garantinham as escolhas???
O que farão os garimpeiros
que como nós só são inteiros pelo valor dourado das palavras firmadas???

Ingrid Cunha (04/03/09)

 

 

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     Pablo Neruda  (pseudônimo)

 

Pablo Neruda

 

   Talvez se escrevesse Neftalí Ricardo Reyes muitos não o reconheceriam, mas este era seu verdadeiro nome.  Poeta chileno, nasceu em Parral em 12.07.1904.  Passou a infância em Temuco, no sul do país e em 1921 mudou-se para Santiago, estudou no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile e começou a escrever seus primeiro poemas, reunidos em Crepusculario(1923) sob o pseudônimo de Pablo Neruda, adotado legalmente em 1946.
   O livro seguinte, Viente Poemas de amor y una canción desesperada(1924), marcado pela emotividade, transparece angústia numa linguagem poética.
   Pablo Neruda foi cônsul do Chile em Rangun, durante cinco anos, representou seu país em diversos países. Casou-se com Maria Haagenar em 1933 escreveu, Residência em la Tierra, um profundo pessimismo em relação ao mundo.
   Inspirado pelo comunismo, aderiu ao marxismo e escreveu a abra España em el corazón (1937). Em 1945 foi eleito embaixador do Chile pelo Partido Comunista, depois foi cassado e abandonou o país.  Na União Soviética, durante seus anos de exílio,  ganhou o Prêmio Lênin da Paz e escreveu uma de suas maiores obras: Canto General.

O poeta do Mundo

  

   Pablo Neruda regressa ao Chile em 1952, com o retabelecimento das liberdades políticas e fixa residência em Islã Negra, no Pacífico.  Escreve Odes Elementales(1954), Cien sonetos de amor(1959), Memorial de Islã Negra(1964), A espada incendiada(1970).
   Em 1971 recebe o Premio Nobel de Literatura e é nomeado embaixador do Chile em Paris até o golpe de estado que sepultou o governo de Salvador Allende.
Pablo Neruda morreu em Santiago, em 23,04.1973 e sua autobiografia, Confesso que he Vivido, foi publicada em 1974 e é um testemunho sobre o poeta e seu tempo.

 

 

 

 

 A palavra  (traduzido)

… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.
 
 Pablo Neruda  _  Do livro “Confesso que he vivido”
 

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   Espero que, de fato, tenham gostado. Aguardo seus comentários e (por que não ?!) seus textos para serem apresentados a todos que visitam esse blog/site…
     
 
Maíra Brum
 
 
 

 

 

 

 

Um pouco sobre Maira Brum
"Se todos os seus planos são sonhos, corra a frente e os transforme em realidade"... Maíra, morena, Maíra.

Papéis Avulsos

Postado por Maira Brum em 3 mar 2010 - (1) Comentário

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Boa tarde gente feliz… ou melhor, gente que mesmo presa em casa por conta da chuva continua feliz !! ;D

Nesta quarta-feira um tanto monótona começarei um capítulo a parte dos meus texto, abro agora o Papéis Avulsos”.

O que é “Papéis Avulsos” ?!   … É nada mais, nada menos  que um espaço aconchegante e democrático para apresentar-lhes textos e/ou poemas e seus escritores que ,como eu,  precisam de um empurrão para de fato serem conhecidos pela massa.

E já adianto que, se você tiver uma dica ou quem sabe quiser mostrar seu trabalho pode mandá-lo para maira_brum@hotmail.com que terei o prazer de ler e quem sabe postar.

Pois bem, explicações dadas… vamos ao nosso primeiro convidado.

Thiago de Mello

Poeta Thiago de Mello

Amadeu Thiago de Mello, autor de "Estatutos do Homem"

No Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Foi preso durante a ditadura, exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e companheiro por toda a vida.

No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou a sua pequena cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.

Ainda durante o regime militar  Thiago Mello recebeu o  prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte o que tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

E agora postarei um de seus poemas mais belos : Os Estatutos do Homem.

Os Estatutos do Homem
(Acto Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Thiago de Mello, Santiago do Chile, Abril de 1964

_ http://www.youtube.com/watch?v=XylbBRdiRdI

Até a próxima meu povo,

Maíra Brum.

Um pouco sobre Maira Brum
"Se todos os seus planos são sonhos, corra a frente e os transforme em realidade"... Maíra, morena, Maíra.

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